segunda-feira, 13 de março de 2017

Dois cafés e uma história, por favor!


   Era um desses lindos dias de outono, uma quarta-feira qualquer de abril.
Ela chegou tímida e sorridente. Olhos azuis, cabelos loiros, aparentava menos idade do que tinha.  Pediu um café, um bolo de chocolate e pude  perceber que  queria  conversar.

  Disse que adorava café e tomava devagar para sentir bem o sabor de cada gole. O mesmo acontecia com o bolo de chocolate, comido em lentas garfadas.
 Disse que nunca havia comido um bolo de chocolate tão bom, nem mesmo gostava de doces. Mas, que o meu era especial. Não era doce demais, era leve e muito saboroso.

 Ela falou da decoração, disse que via o capricho e o carinho em cada detalhe.
Neste momento, eu também peguei uma xícara de café e me  sentei  para conversarmos...

  Ela trabalha aqui pertinho, estava passando e resolveu tomar um café.
 Contou-me que trabalha na escola aqui da esquina. Que tem dois filhos, que trabalha muito, que estava  se  separando de  um marido que não  valia nada. Depois de vinte e nove anos de casamento, ela tomou coragem e resolveu começar outra história. “Os filhos já estão crescidos, agora vou cuidar de mim!”.

 Funcionária da Prefeitura de São José, concursada! Me  disse, com orgulho.  Não mais orgulhosa, do que quando disse que era artista.  Artesã, ceramista, que sabia costurar, pintar e ainda arrumava tempo para cuidar de idosos à noite.
 Eu ouvia tudo, atenta aos detalhes fiquei feliz por ela ter entrado aqui.

 Mais um elogio ao café e ela disse (com lágrimas nos  olhos) que tinha sido menina de rua. Que passava na frente das casas nos fins de semana e  via  a  família reunida, que  sentia  o cheiro da comida e  imaginava o que seria  aquilo.
 Com o irmão menor pelas mãos, seguia de casa em casa e se oferecia para lavar a louça em troca de um prato de  comida. E podia ser o resto mesmo, não ligava de comer os restos. Para quem tinha que catar comida no lixo, os restos lhe pareciam um luxo.

 “Vivi muito tempo na  rua, cuidei do meu irmão menor. Passei noites em  claro, passei frio e fome, até que  fomos  parar  num  abrigo. Consegui estudar, fiz  o primeiro grau e  o segundo também. Decidi  que  nunca mais  iria  passar fome e  que  teria  uma  família linda”.

Viu no casamento um sonho de estabilidade e segurança.  Fez três faculdades e nunca parou  de estudar. 

Hoje ela voltou.
 Sempre sorridente e entusiasmada com a vida, me pediu um café:
“ Mais café do que leite. Preciso acordar... ESTOU NAMORANDO!"